11 de janeiro de 2013

AS PALAVRAS DO OUTRO



Gosto tanto dos textos de Tatiana C. Mendes, que este Blog vai parecer que é dela!
Mas...estas palavras, eu precisava trazer para cá.


"A internet não é para os fracos. A internet é para os fortes. Para os espertos. Para aqueles que têm sorte. Não é ambiente para quem se afeta, pois aprofundar-se em meio à transitoriedade é suicídio emocional – catapulta para a descrença e a frustração – que pode ser a curto, médio ou longo prazo.

Detentora da consciência de que tenho me matado – emocionalmente falando – aos poucos, ainda insisto no fato de que pessoas são pessoas, independente do meio. Insisto em considerar alguém que nunca vi da mesma forma que considero alguém que está ao meu lado todos os dias. Respeito independente de quem seja e onde esteja. E por mais que eu faça tudo isto de maneira gratuita, ser levada pela correnteza – sem saber nadar em águas tão fluidas, pois estou mais acostumada com mergulhos – é afogamento certo. 

Nadar? Não sei. 
Resistir? O ar já me falta. 

Já sei que tem gente que vai ler e dizer que “eu também considero”; “também percebo as pessoas, independente de estarmos numa rede social,...” – balela! Pensou isto? Então pondera. Porque tem gente que fala, mas não faz – não age, não cumpre e não banca e não sustenta. Às vezes até banca – prioriza, mas por egoísmo, necessidade, conveniência. Fora isto – falta de opção pura, tipo “não tem tu, vai tu mesmo”. 

Pretensiosamente, digo [aconselho]: não banca? Não quer? Não é mais necessário? Deixou de ser conveniente sabe-se lá porque, isto é se algum dia foi uma coisa qualquer? Sai. Some – do mapa. Não quer falar nada? Jogar abertamente? Então não fale, mas não fale NADA. Não alimente. Se cale por completo. Siga na sua correnteza sem comprometer os mergulhos alheios.

... Porém, como não sou adepta às generalizações, creio que ainda existam aqueles que se afetam de fato, que pensam – ponderam – dizem e agem –, que são os que deveriam ter a sorte de encontrar “pares”, “ímpares” – “múltiplos” – num mesmo nível de profundidade, crença e interação; por mais que sejamos fortes, nadar contra a correnteza é minar toda e qualquer força. É se esvair lentamente. Morrer.
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Desabafo sem direção. Faz tempo que penso acerca do tema."

Tatiana C. Mendes

28 de dezembro de 2012

AS PALAVRAS DO OUTRO



" Este negócio de correr cansa.
Correr atrás,
Pior ainda.
Se for preciso correr,
Que seja na frente;
Melhor ainda se for ao lado.
Caso não seja possível
– a corrida –
Ande.
Mas ande de cabeça erguida,
Corpo ereto,
Com olhar fixo no horizonte.
Jamais olhe para trás
Ou para o chão;
Atrapalha o rendimento.
Sempre à frente!
Adiante!
E já! "

 Tatiana C. Mendes.

27 de dezembro de 2012

24 de dezembro de 2012

AS PALAVRAS DOS OUTROS


Foto de Zazá Lee  


“Então é Natal, mais uma vez”...

E o ano foi especial continua sendo; e no futuro não será diferente. Repleto de expectativas.

Coisas aconteceram: boas, ruins; muitas águas rolaram por baixo da ponte – caíram do céu também, teve enchente; sede saciada, e muito suor escorrendo. 

Coisas aconteceram: boas, ruins; muitas águas rolaram por baixo da ponte – caíram do céu também, teve enchente; sede saciada, e muito suor escorrendo. 
Tivemos tudo. 

Quase tivemos o “fim de mundo”... E quem disse que não foi? Quem garante que fim na verdade não é início? 

Vai que... Talvez estejamos no meio, mas depois de estarmos “metade”, será que nos completamos ou nos desfazemos? 

Fato é que a doação de nós mesmos não pode, e nem deve, cessar... 

Tivemos calor, sol que aquece – brilha –, mas também queima, não só por fora – tivemos até mesmo corações aquecidos que saltaram pra fora do peito, e estiveram, ainda que momentaneamente, fora do ponto. 

Houve também o frio que gela pele, e aquele tipo de frio que corta alma. 

Tivemos casa – comida (roupa lavada, nem todo mundo teve); houve e ouvimos e vimos ruas, bairros, cidades, países, mundo – Terra – tivemos natureza – mãe – e Presença: era a beleza das flores, a riqueza do céu azul, as cotovias que fazem serenatas a nosso pedido, a noite que chega e a lua que cai e as estrelas que bailam; tivemos escuridão – pano de fundo pra luz, toda protagonista que se preze precisa de uma escada. 

Ainda que às vezes pensemos que não seja nada. 

Ainda que às vezes esqueçamos que o nada não existe. 

Tivemos um mundo a nossos pés. Um Universo a nossa disposição. 

Tudo “‘ali’ – basta pegar”. 

Óbvio que para alguns o “pegar” é mais facilitado, para outros, mais dificultoso – mas não menos – quiçá até mais – prazeroso. 

E é o que desejo para as minhas amigas e amigos: 

PEGUEM TUDO QUE ESTIVER AO SEU ALCANCE. 

Caso haja alguma dificuldade, peguem a dificuldade também. 

Percebam o prazer da tentativa. O prazer de cair, de levantar. 

De olhar pra frente e perceber que somos aquilo que construímos ao redor de nós mesmos e sobre nossa essência, que é a base. 

Batalhas travadas, derrotas, vitórias, mas acima de tudo, somos a maneira que encaramos/ enfrentamos a VIDA que VIVEMOS. 

A escolha é – e sempre será – NOSSA. 

“Portanto escolham, peguem, grudem, agarrem e façam.” 

VIVAM. 



Tatiana C. Mendes



      

18 de dezembro de 2012

EXPECTATIVA




"E eu ainda continuo me surpreendendo com as pessoas. 
Pena que surpresas nem sempre são boas. 
Nem poderiam ser. 
O que não é de todo ruim. 
Luz e escuridão coexistem. 
O bem só é valorizado devido á falta que o mal proporciona. 
Vivemos de simbioses. 
A base de necessidades. 
O que é um risco. 
Quem necessita, busca; da mesma forma que quem tem fome, come. 
Acreditar é necessidade; necessidade de SE alimentar. 
O que não deixa de ser egoísmo. 
Quem acredita, espera. 
E às vezes, aquilo que é esperado, parte, mas não chega. 
Daí a cautela com os excessos de querer – e de SE surpreender –; só se surpreende, quem antes acreditou. 
Bom mesmo é viver sem calcular – do inesperado, e não à mercê de expectativas – catapulta para frustração. 
Somos algozes de nós mesmos"

Tatiana C. Mendes

PODE CHEGAR 2013...


31 de outubro de 2012

MINHA VOLTA



A vida funcionou para mim, até agora, como se eu estivesse comandando um barco.
Viajei, vi muitas paisagens diferentes, aportei em muitas praias.
Mas a maré foi encaminhando meu barco de tal forma, que não consegui leva-lo para lugar algum.
Deixei que o barco fosse seguindo a maré. 
Dormi ao som de tempestades e raios.
Fiquei assustada com peixes estranhos.
Um dia, decidi ancorar em uma praia deserta. 
Muito linda e solitária.
A reflexão chegou, com o silêncio cortado pelos sons gritantes das gaivotas.
E tive a iluminação que precisava.
Voltei.
Para a praia que estava destinada a mim.
O Espelho Sem Aço, terá uma nova missão daqui para frente.
Cautelosamente, estou ancorando na minha verdadeira praia.

13 de outubro de 2012

A CASA DOS CHEIROS




Uma vez por ano, passávamos as férias na casa de minha avó materna.

Mamãe, por ocasião da visita anual, costumava deixar um ou dois filhos, cumprindo a profecia das composições escolares, para tornar a buscá-los semanas depois.

A casa de minha avó tinha um caráter austero; simples, elegante, limpa, e ao mesmo tempo, superior e arrogante: impressionava. 

Comprida, pé direito alto, corredor que levava ao além da vida, uma passadeira bem cuidada conduzindo ao ponto cardeal extremado da casa : banheiro, cozinha e quintal.
Este mesmo corredor, próximo ao burburinho, ostentava a única modernidade que a casa poderia suportar: duas geladeiras robustas, barulhentas, de motor inquieto, com maçanetas lembrando porta de “ Ford” velho – uma para as comilanças de todo o dia, e a outra, entupidinha de doces caseiros, cidra, abóbora com coco, doce de mamão em espelhinho, umas delícias que nunca se acabavam, ao contrário, miraculosamente se renovavam. 

Doce de leite pastoso, goiabada em gomos, compota caprichosamente colocada em cristais, geleia de mocotó, ruim, ruim, ruim...
Cozinha pequena para tanta gente, sem mistérios, onde pouco entrei, e pouco observei – exalava a nata de leite gorduroso que ficava sobre o fogão a lenha, e a multidão de panelas e tachos, cores e tamanhos variados, barro, cobre, latão, cada um com seu destino de ter sido separado para ser do doce de figo, do frango, do sabão.

O quintal era fedidíssmo em bizarro contraste com a casa, muito responsabilizado por uns poucos patos e galinhas que habitavam ali, fazendo não sei o que, visto que nunca vi que morriam ou se sacrificavam por refeição alguma. 

Ficavam confinados a um pequeno galinheiro de arame, com potes e potes de água verde, repletos de penas e grãos de milho desperdiçados. 

Não passavam de uma cerca baixa, mal pintada e rústica, porém, na minha memória, soltíssimos, quase chegando ao quarto onde dormíamos.

Vovó era uma mulher de métodos. 

Com ela não havia improvisação – nada de colchões no chão, acampamentos feitos à última hora para os que chegassem sem aviso.

Os quartos da frente eram sempre reservados aos netos que vinham de longe; não havia indagações sobre onde dormiríamos.

 Era sempre lá, no cômodo pequeno da frente, com duas camas noviças, sem rococó ou traço ínfimo de feminilidade – camas de dormir, encostadas em cada lado da parede, separadas por um tapete de retalhos do artesanato próprio da casa – meu Deus, quem se ocupava com aquilo ?

Os cheiros da minha infância são notadamente marcados pelo odor da roupa de cama da casa de minha avó. 

Hoje, adulta, com uma pequena experiência em alquimias de cozinha e tanque, chego a pensar que vovó caprichosamente temperava as essências de sua casa para que fossem eternamente lembradas e únicas - a roupa de cama, branca, hotelesca, cheirava a sabão de cinza, produzido lá mesmo no quintal, mas que não trazia o cheiro dos patos, mas sim o da lida, o da esfrega, do esforço bruto de manter a ordem e disciplina.

Cada cama escondia um urinol – de ágate branco, quebrados nas pontas – que eu francamente nunca pude compreender. 

Diariamente eram retirados e recolocados como que por magia, guardiões do meu sono perturbado e vigilante.

Por sobre cada cama, eis que vovó surpreendia. 

Pendurados, exatos em tamanho, mas em diferentes poses, havia imagens de anjos-criança, com o fim exclusivo de abençoar o sono de quem estivesse abaixo.

Anjos crianças demais, com pouca maturidade e experiência, e o que produziam, na verdade, era um inconfundível pavor ante tão pouca segurança, à medida que as luzes da casa iam se apagando, e vovó, resoluta e fria diante do meu pedido desesperado e pouco convincente por um pouco de luz, ia exercitando em mim a negritude do futuro, e com gestos decididos, escurecia minha visão e aumentava as sombras do meu pânico.

Casa de forte comprometimento católico, exalando básicos odores de velas do cristianismo através de crucifixos e santos muito simples, meu sono nunca chegava antes que meus olhos não resistissem mais às longas piscadelas , e à espreita eterna de que os anjos-nenês iriam reclamar do trabalho dobrado de guardar meu sono.

Meu corpo pequeno, magro e sempre frio, parecendo ter sido vindo de alguma era glacial, não deitava, ficava. 

À simples ideia de me virar um pouco produzia em minha mente a culpa inexplicável e trágica por não apreciar as sombras gigantescas que a parede produzia por um poste que mal iluminava a calçada no lado fora.

Chego a pensar na crueldade com que minha avó atormentava também as crianças-anjo, que não queriam abençoar ninguém, medo terrível de ficar guardando um quarto, sorrisos forçados por sobre crianças eventuais e forasteiras, a observar continuamente as sombras se formando, tendo que suportar o ritual satânico do abandono das luzes e o surgimento das trevas, estendido noite adentro, sem indícios de rebelião.

O relógio da sala de jantar marcava as horas histericamente – bate até hoje bumbado no meu coração. 

Por volta da meia noite, minha mente trazia os patos lá de fora – lá vinham eles, desajeitados, rebolantes, decididos, porém, atravessando toda a península da casa e invadindo os quartos sem nenhuma explicação.

Porque nunca esquentava ? 

– Ao contrário, as temperaturas baixas se prontificavam a declinar cada vez que eu me revirava: - faltava um cobertor, havia um cobertor, faltava o abraço de boa noite, não faltaram abraços, faltava o amor, mas amor também estava ali, cumprido e realizado em ações devocionais de culinária e limpeza absoluta através dos passos diligentes.

A casa de minha avó foi magia para meus olhos de pequena.

Pela manhã, depois de uma noite torturante e densa, tão certo como a vida, vovó abria a porta da frente à hora que o sol surgia, negra, paramentada de terço e véu, as chinelas se arrastando, pesadas correntes que me despertavam.

Daí as flores surgiam, os brincos de princesa da minha meninice, a pimenteira vermelha brava plantada junto ao muro caiado, os dias azuis, a liberdade sem freio...

As idas à bica da minha infância, verde água da cor do bambuzal, viçoso e lúdico, a água da mina confinada em cano, jorro de alegria para a alma de criança, espírito aprendiz da liberdade e poesia.

A existência do oleiro logo abaixo, a primeira consciência da forma, da produção do vaso de barro e o meu espanto ante a arte primeira, a simplicidade da arte, o fascínio das horas que não passavam, com todos os bichos soltos na minha imaginação.

A poesia das borboletas alaranjadas, levezas em tontura, simplérrimas, o revoar delas, desordenado na minha memória, a decorar as árvores da minha infância, raízes saltadas para fora da terra, a alma de criança aprendendo com a solidez e a competência da vida.

Um dia parei de ir. Vovó havia se mudado.

A casa passou a ser uma casa de esquina, meio que velha demais para o quarteirão, até que bem mais feia do que antes. 

Há bem pouco tempo me contaram que virou restaurante – triste fim para o que fora misto de sombras e delírio.

Alma de criança aprendendo a vida, a distinguir as cores, a contrastar o belo e a escuridão, a acreditar que há escuridão entremeada à luz, que há bicas, há oleiros, que ainda há vasos de barro e jorros de alegria vindos da mina em meio a bambuzais de sonho...

As cores da minha infância, os matizes dos meus poucos anos, os devaneios que se cumpriram, todos eles estão vivíssimos dentro do peito desta mulher que ainda sonha, desta mulher madura.

A casa dos cheiros também."

Pé de Pitanga
http://pdepitanga.blogspot.com


Este texto, compartilho com alegria e saudade, pois fiz parte de tudo.
A autora, minha irmã, fez renascer em mim, as lembranças que nunca desejei esquecer.